domingo, 13 de dezembro de 2009

Epifania

                               Lembro bem daquela noite: enquanto dirigia para casa, cansado da lide, (talvez nem tão cansado assim) a lide, o ofício de ensinar o incognoscível: música, nos faz um tanto insensíveis tais quais os médicos que cortam, torcem, costuram um ser humano sem o menor remorso, tratamos a música como mero objeto de trabalho, ferramenta através da qual retiramos o sustento, reforçamos idéias e/ou disponibilizamos conteúdo programático... voltando à viagem de volta para casa... ora o rádio ligado, ora o CD tocando quando, aleatoriamente, num momento radiofônico, ouço uma entrevista: Oswaldo Montenegro. Aquele sujeito nunca me chamou a atenção, excetuando-se a música-tema do Sassá Mutema, nada conhecia da obra daquela figura, mas fui, não sei porquê, compelido a continuar escutando e comecei a ouvi-lo muito melhor do que jamais o havia ouvido, falava do seu jeito boêmio, de sua opção por um modo de vida desligado do mundo, de sua descoberta pessoal de que um artista deve ter, tão somente, sua marca claramente estampada em tudo quanto faz, e num momento musical, parte para cantar algumas músicas de seu repertório quando passo por um momento de alumbramento que não vivia há muito tempo... aquela música falava comigo! Tentei até teorizar procurando quais exatamente seriam os temas universais escolhidos pelo autor para conseguir tal efeito, mas a epifania foi tão arrebatadora que os pensamentos se esvaíram, a música gritava meu nome, falava com cada parte da minha vida, dizia tudo aquilo que eu não tinha sido capaz de dizer até aquele momento, tentei teorizar de novo, coloquei a culpa dessa frescura na iminência de uma crise dos quarenta, mas tudo fazia sentido naquele momento... cada palavra, cada verso tinha endereço certo: um determinado momento da minha vida! A experiência quase religiosa ia me arrebatando a cada verso, cada um deles me açoitava...
                Antes que você possa começar a rir de mim sem parar, tente você mesmo não “existencializar” esses versos (principalmente se você já passou dos trinta e cinco)... disponibilizo a letra para que você tire suas próprias conclusões:

                A Lista – Oswaldo Montenegro

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?
  

                Pode enxugar, eu finjo que não vejo...

sábado, 28 de novembro de 2009

Casamentos…

                Nós, (como o Clemir gosta de dizer) mediadores de experiências religiosas, vez em quando somos convocados a realizar uniões matrimoniais, a lei nos torna equiparados a juízes de paz (o que, por sua vez, nos torna despenseiros de múnus legal, o que deveria ser muito mais bem utilizado...(decreto lei 6.025/73 cap. VII)), e enchemos a boca para repetir, como papagaios, a célebre frase proferida pelo Mestre: “...o que Deus ajuntou, não separe o homem...”. Minha rusga com o dito, obviamente, não é quanto ao Mestre tê-lo dito, mas é quanto a nós o dizermos. Quem, efetivamente, sabe se Deus REALMENTE ajuntou determinadas pessoas que insistem em juntar-se? Fiamo-nos no igualmente célebre dito de Cristo: “... o que ligares, pois, na terra, será ligado no céu...”, mas isso também foi dito pelo Mestre a uma pessoa, especificamente: Pedro. Quem disse que seria verdade para cada um de nós? Quantos casamentos celebrados lindamente em nossos templos acabam em separação, às vezes até litigiosa? Ainda bem que são poucos, por enquanto, mas existem uns tantos.
                Por quê a indignação? Por quê o comentário? Porque não existe coisa de pé que não tenha sido levantada por algo/alguém. A certeza que “temos” vem ainda do velho hábito (veste) do sacerdote. Ainda não entrou em nossa cabeça dura que diante de Deus somos todos iguais, não há quem desfrute de privilégios especiais salvo aqueles que provém da comunhão, da experiência, do viver diário. Ainda vestimos hábitos, não os mesmos, mas com a mesma função: diferenciarmo-nos da plebe através de paramentos visíveis e claramente identificáveis. Ainda cremos que a gravata fará a diferença necessária para que Deus nos ouça/atenda.
                Ai de nós.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Jóias de Cristo


                Hoje assistimos a uma pequena cantata infanto-juvenil em nossa igreja. O título da obra era: “Os Sonhos das Três Árvores”. Em poucas palavras, cada uma das três árvores tinha um sonho grandioso, mas que não aconteceria, cada uma se tornaria, ao invés de aquilo que desejava, coisas insignificantes: um cocho, um barquinho e duas traves (que formariam juntas uma cruz...). Clássico.
                Mais um programa igrejeiro ao qual todos nós estamos mais que acostumados. Muito bem. Seria simplesmente isso se eu não tentasse ir mais fundo, se não escarafunchasse um sentido maior do que ser mais um dos centenas (milhares?) de programas que assisti ou ainda assistirei.
                Procurei imaginar, olhando no rostinho de cada uma criança que cantava ali, que atrás daquele sorriso que estava estampado, daquela representação meia-boca, característica infantil, enfim, cada criança que estava ali carregava sua própria tragédia/comédia de vida. Cada uma vidinha ali tinha suas peculiaridades: lembrei de uma que tinha uma doença incurável, que a acompanharia por toda sua vida, lembrei de outra que volta e meia tinha convulsões, lembrei que um garoto, naquela mesma noite havia “mandado” todos de igreja fazerem coisas bastante obscenas...pois é. Ali estavam como anjinhos cantando e prestando o “perfeito louvor”.
                Lembrei que para estarmos perto de Deus pela eternidade (prefiro não divagar sobre o céu, todas as metáforas bíblicas não são suficientes para o descrever, escolho entender que é bastante saber que “perto de Deus” e “longe de Deus” são lugares diametralmente opostos...) precisamos nos tornar como eles. Como as crianças. E é neste exercício de transcrever aquilo que absorvo que tento, me esforço mesmo, para capturar a assertiva divina. O que será que precisamos copiar das atitudes infantis para termos acesso ao paraíso?
                Não adianta mais vir com aquelas respostas prontas: confiança...inocência...etc. porque se analisarmos bem veremos que, principalmente em nossos dias, confiança e inocência são coisas que as crianças quase já nascem sem (talvez porque nós mesmos não inspiremos confiança e porque estejamos roubando sua inocência...).
                Ainda não sei bem a resposta, tenho um palpite e tento apreender pela relação que tenho com meus filhos, mas ainda assim esta é uma comparação insuficiente para descrever a nossa relação com o Todo Poderoso. Fora o fato de que me reconheço pecador e por mais que lute, o testemunho paulino é, como o foi para o próprio, verdade para mim (o bem que quero fazer não faço, mas o mal que não quero...).
                Mas meu palpite é o seguinte: a criança é um poço de potencialidades! Tudo o que ela quiser ser, ela será! Tudo aquilo, também, que for ensinada a fazer, fará.
Conversava com um amigo e ele me contava (apavorado, com toda razão) que na turma de sua filha de oito anos havia um menininho na mesma faixa etária que era ASSUMIDAMENTE gay, e todos o tratavam como tal, PROFESSORES e alunos. “Ele é produto do meio”, dizia o amigo. NÓS sabemos muito bem disso, parece que ELES não sabem.
Nos falta essa abertura, com o passar do tempo vamos nos fechando, vamos nos enclausurando dentro de um caracol de experiências, de impossibilidades que nós mesmos nos impomos e quanto mais entramos nesse caracol, mais ficamos presos...
                Vocações são perdidas pela aparente impossibilidade, muitíssimo daquilo que já poderia ter sido realizado em prol do Reino fica à deriva porque, mesmo que ouçamos a voz divina (vocação é isso, ouvir a voz...) chamando para o trabalho, nos encontramos presos em caracóis que nós mesmos construímos, “renovação do entendimento” é, na melhor acepção da palavra, uma utopia (lugar que não existe...) porque já nos bastamos. Não há espaço para mudança, nem Deus nos muda o entendimento...
                Me ocorreu agora pensar em o quê cada criança daquele coro estará fazendo daqui a dez anos... lembrei que seja o que for, será, em parte, culpa minha também.
Tentarei dormir com esta inquietação.
Paz.

domingo, 15 de novembro de 2009

Tem de todo jeito...

Engraçado como são os crentes, não? Há aqueles que pensam que suas próprias intenções e pensamentos são o espelho do céu na Terra. Há ainda aqueles que pensam (?) que o evangelho do Reino é simplesmente a (sobre)vivência de regras de homens e a desobediência a essas regras garante o inferno mesmo em vida. Há aqueles que somente observam, até bem intencionados, convictos, achando que nada podem fazer, “são muitos aqueles outros...” Há ainda aqueles que não conseguem discutir, debater civilizadamente sobre qualquer assunto, colocam todas as emoções na disputa e até querem brigar. Tantos outros caracteres e personagens permeiam o nosso universo eclesiástico, se acotovelando por um lugar ao sol da aceitação e do reconhecimento públicos...
Aprendi com meu velho pai que é por esses todos que Cristo morreu, é por tantos quantos que Ele, na manifestação mais sublime da Graça, o Soberano Criador do universo humilhou-se à condição humana e, pensando também nestes, ofereceu-se como o sumo sacrifício. Porque então negar-se a apascentá-los? Porque negligenciar a correção? Porque suprimir e, amedrontados, esconder valores, princípios e atitudes dignas do Reino (leia-se do Reino mesmo, sem rodeios e “mise en scènes”...)?
Difícil. Muito difícil mesmo, mas possível.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Adoração: todo mundo já sabe de tudo (?)

Falar sobre adoração nestes tempos em que muito se fale sobre este tema parece sempre chover no molhado, parece que todo mundo já sabe tudo o que tem que saber e, pior, não tem o menor interesse em escutar algo que não seja consoante àquilo que já se tem como certo... qualquer fala que destoe daquilo que a massa já internalizou é, em primeira mão olhada com desconfiança. Pois bem, é sempre a partir desta premissa que falo sobre adoração por onde quer que o “vento” me mande.


Mas esse mesmo “vento” que nos dirige, vez em quando nos surpreende com reações (minoritárias, é verdade, mas muito promissoras...) positivas que, via de regra são expressas em questões inquietantes, perguntas que parecem não ter respostas e que não calam enquanto não satisfeitas, muito bonito de se ver, creiam.

sábado, 7 de novembro de 2009

Aquilo que pensamos versus aquilo que fazemos...

                Recentemente estive em um casamento de um familiar. É sempre muito bom ver que algumas pessoas ainda acreditam nesta instituição. Mas, em festas como esta, eu acredito, quando observamos as pessoas, é que aprendemos mais, que podemos, no meio da confusão, observar a maneira através da qual as pessoas enxergam o mundo, afinal, Platão já dizia: “você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa"...
Estávamos, a certa altura, nós e a família de um amigo quando ele comentou: “Legal a festa, não tem bagunça...”, e naquele exato momento o DJ anunciou: “Vamos esquentar as coisas aqui!!”...e começou a tocar aquilo que os brasileiros teimam, enganados, em chamar de funk... Começou calminho, com letras (sim, letras, não há música neste gênero...) não tão ofensivas, mas como este caminho nunca acaba bem, lá pelas tantas as coisas que ouvíamos eram: “Vem novinha, vem...” e daí prá pior. E as pessoas se esbaldando! Caindo na farra. Vocês sabem que o movimento-mor da dança deste gênero é aquele da ligeira abaixadinha e a pélvis que, pornograficamente, vai e vem sem parar. Até aí morreu Neves.
Escrevo estas linhas por que naquele exato momento fiquei imaginando cada uma daquelas pessoas sendo inquirida, por exemplo, sobre o que pensavam da violência, sobre a prostituição, em especial a infantil, e sobre assuntos desse gênero. É claro que já sabemos as respostas, todas elas negativas, de reprovação, etc. Pois bem, em pensamento, eu juntei esses dois momentos, o da pélvis nervosa com o da entrevista e tentei por alguns minutos imaginar como cada um se safaria, consciente (ou não...) de que este gênero é um dos principais alimentadores daquelas situações vergonhosas e até mesmo criminosas.
É espantoso o que somos tentados a imaginar ao presenciarmos tais situações...
É claro que tal situação imaginária é até possível, mas de probabilidades quase nulas, mas que faz a gente pensar, ah, isso faz.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Fragmentos




Samuel Rezende


Tenho uma fé lúcida. Aceito a dúvida como um sinal da fé. Se a fé fosse o sinal de uma certeza, seria fácil o caminho da eternidade. A fé é um ato radical que não se confina no quotidiano. É fácil se entregar à rotina ou aos rituais. O difícil é cultivar esse abandono ao poder do Espírito.
            A escritora Flannery O’Connor disse que “Chega-se a uma razoável certeza a respeito do caminho a trilhar, mas é um percurso no escuro. Não conte que a fé tornará as coisas mais claras. Trata-se de confiança, não de certeza”.
            O pensamento é um poderoso e precioso poder, mas é um horizonte não uma fundação. Não possui solidez para alicerçar a alma, mas alarga a visão. Amplia o nosso alcance mais do que o fixa. Amplifica o problema, sem resolvê-lo. Fé não é um asilo para os que tem preguiça de pensar.
            Dostoiévski dizia que “Não é como criança que creio em Jesus Cristo e o confesso. Meus hosanas nasceram de uma fornalha de dúvidas”.
            Frederick Buechner dizia que as “dúvidas são as formigas nas calças da fé. Mantêm-na acordadas e em movimento”.
            Como disse o poeta Rainer Maria Rilke, é melhor viver com uma pergunta embaraçosa do que negar qualquer uma das realidades dentro dela.
            Ao contrário de outros livros proféticos, Habacuque é mais uma oração do que uma profecia. O preocupado profeta ousa dialogar com Deus, enfrentando-o com perguntas que parecem desafiar o amor de Deus. Costurando perguntas difíceis e respostas divinas, o método foi denominado “rabínico” ou “socrático”, e foi usado por Jesus com muita eficiência (Mt. 24:42). A fé de Habacuque é tão profunda que ele pode expressar honestamente as suas dúvidas e ficar satisfeito quando o Senhor responde com novos apelos à fé.
            Mesmo através da lente grossa do racionalismo e do materialismo, podemos exercitar o olhar da fé. O apóstolo Paulo alertou que o olhar de fé de Abraão foi considerado como justiça. O olhar o justificou.
            O discurso de Deus para aquela família estéril é um convite ao abandono. Sair do presumível mundo das normas e segurança. A ordem é concisa e peremptória. Ela não se baseia na lei ou disciplina, mas na promessa. Partir é abandonar a esterilidade. A fé repousa na contradição: ficar em segurança é permanecer estéril, correr o risco é ter esperança. A fé implica em uma jornada rumo ao desconhecido. É preciso dar o primeiro passo, sem saber para onde estavam indo, quando chegariam lá ou como saber que já chegaram. A fé não é a posse do mapa, mas a viagem.
            A jornada teve várias etapas. Eu gosto de pensar nisso. A fé como verbo ao invés de substantivo, um processo em vez de uma posse. Eu tenho a fé que meu amigo é meu amigo. É possível o engano. É possível que ele tenha outra intenção além da simples amizade. Mas as nossas conversas, os conselhos, o silêncio sem embaraço, me leva a crer na sua amizade. Eu não posso prová-la, mas a experimento.
            Fé inclui dúvida. Paul Tillich dizia que a dúvida não é o oposto da fé, e sim um elemento.
            Fé é caminhar, um passo de cada vez. Às vezes parece uma rodovia devidamente sinalizada, em outras, é uma trilha cheia de folhas, galhos e armadilhas. A fé é uma resposta a um convite.
            Como filhos da modernidade, esse parece um conceito curioso. Estamos habituados a pensar em nossas próprias realizações, as nossas próprias agendas, os nossos próprios objetivos. A história de fé de Abraão é um lembrete útil de que não somos arquitetos da nossa própria vida ou do mundo. Nós somos herdeiros de uma promessa, e não pode haver promessa sem que haja um autor. A promessa de segurança, bem-estar, prosperidade e proeminência são dons a ser colhidos durante e ao fim da viagem. É o que torna a viagem sagrada e não apenas um vadiar através dos dias.
            Crença centra-se em declarações. Fé implica em ação.
            Thomas Merton falou da “possibilidade de um diálogo ininterrupto com Deus”. Um diálogo de amor e de escolha. Um diálogo de confiança e esperança. Um diálogo que permita soltar-se como um falcão nas correntes de ar.


O antônimo de fé não é dúvida, mas medo.


***
(Trecho extraído do livro "A sobrevivência da fé" de Samuel Rezende)




É...tem coisas das quais a gente cansa mesmo...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Olá, amigos.
Estive ausente porque tive que formatar o HD do meu computador... muito trabalho para reinstalar tudo de novo...
Brevemente estarei de volta com novas postagens.
Paz,
Elber.

sábado, 26 de setembro de 2009

Silvia, essa te interessa...


Checada e conferida no site do The Guardian. Procede.
Ex-presidente Carter deixa Convenção Batista 
"Discriminação e abuso erroneamente apoiados por doutrina estão danificando a sociedade", argumenta o ex-presidente Americano.

Jimmy Carter


The Observer, Domingo, 12 de Julho de 2009


                “Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. “ (Artigo II, Declaração Universal dos Direitos Humanos).
                “Desse modo não existe diferença entre judeus e não-judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus.” Gálatas 3.28

                Eu tenho sido um Cristão praticante toda a minha vida e um diácono e um professor da Bíblia por muitos anos. Minha fé é uma fonte de força e conforto para mim, assim como crenças religiosas são para centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo.
                Então minha decisão de cortar meus laços com a Convenção Batista do Sul [dos Estados Unidos] depois de seis décadas foi dolorosa e difícil. Foi, contudo, uma decisão inevitável, quando os líderes da convenção, citando alguns poucos versos bíblicos selecionados cuidadosamente e reivindicando que Eva foi criada ocupando segundo lugar depois de Adão e foi responsável pelo pecado original, mandaram que mulheres sejam “subservientes” a seus maridos e proibidas de servir como diáconas, pastoras ou capelães no serviço militar. Isto estava em conflito com minha crença – confirmada nas escrituras sagradas – de que nós todos somos iguais aos olhos de Deus.
                Esta visão de que mulheres são de alguma forma inferiores aos homens não está restrita a uma religião ou crença. Está muito difundida. Mulheres são impedidas de exercer um papel total e igual em muitas fés.

                Tragicamente, sua influência não pára nas paredes das igrejas, mesquitas, sinagogas ou templos. Esta discriminação, atribuída a uma Autoridade Suprema injustificadamente, proveu uma razão ou desculpa para a depravação dos direitos igualitários das mulheres ao redor do mundo por séculos. As interpretações masculinas de textos religiosos e a forma com que elas interagem e reforçam práticas tradicionais justificam alguns dos exemplos mais patentes, persistentes, flagrantes e danosos de abusos de direitos humanos.
                Mais repugnante, a crença de que mulheres devem ser subjugadas aos desejos de homens escusa a escravidão, violência, prostituição forçada, mutilação genital e leis nacionais que omitem estupro como crime. Mas também custa para muitos milhões de meninas e mulheres o controle de seus próprios corpos e vidas, e continua a negar-lhes acesso justo a educação, saúde, emprego e influência dentro de suas próprias comunidades.
                O impacto dessas crenças religiosas toca todos aspectos de nossas vidas. Elas ajudam a explicar porque em vários países meninos são educados antes de meninas; porque dizem às meninas quando e com quem elas devem casar; e porque muitas se deparam diante de riscos enormes e inaceitáveis na gravidez e parto porque suas necessidades básicas de saúde não são supridas.
                Em algumas nações islâmicas, mulheres são restritas em seus movimentos, punidas por permitir a exposição de um braço ou tornozelo, privadas de educação, proibidas de dirigir um carro ou competir com homens para um trabalho. Se uma mulher for estuprada, ela é frequentemente punida o mais severamente possível como a parte culpada no crime.
                O mesmo pensamento discriminatório está por trás da constante distância entre gêneros em salários e do motivo pelo qual ainda há tão poucas mulheres políticas na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Esse preconceito está profundamente enraizado nas nossas histórias, mas seu impacto é sentido todos os dias. Não são somente mulheres e meninas que sofrem. Ele danifica todos nós. A evidência mostra que investir em mulheres e meninas produz benefícios substanciais para todos na sociedade. Uma mulher educadas tem crianças mais saudáveis. Há mais chance de ela mandá-los para a escola. Ela ganha mais e investe o que ganha na sua família.
                É simplesmente uma derrota a si mesma qualquer comunidade discriminar contra metade da sua população. Nós precisamos mudar essas atitudes e práticas que servem a si próprias e antiquadas – como estamos vendo no Irã onde mulheres estão na linha de frente da batalha pela democracia e liberdade.
                Eu entendo, contudo, porque muitos líderes políticos podem relutar em pisar nesse campo minado. Religião e tradição são áreas poderosas e sensíveis para desafiar.
                Mas meus colegas Anciãos e eu, que viemos de várias fés e históricos, não precisamos mais nos preocuparmos com ganhar votos ou evitar controvérsias – e nós estamos profundamente comprometidos em desafiar a injustiça aonde quer que a vejamos.
                Os Anciãos decidiram chamar a atenção em particular para a responsabilidade dos líderes religiosos e tradicionais de garantir igualdade e direitos humanos. Recentemente publicamos uma declaração que afirma: “A justificativa da discriminação contra mulheres e meninas baseada em religião ou tradição, como se fosse prescrita por uma Autoridade Superior, é inaceitável.”
                Nós estamos conclamando todos líderes a desafiar e a mudar os ensinos e práticas danosos, não importando quão entranhados, os quais justificam a discriminação contra mulheres. Nós pedimos, em particular, que líderes de todas as religiões tenham a coragem de reconhecer e enfatizar as mensagens positivas de dignidade e igualdade que todas as grandes fés do mundo compartilham.
                Embora não tenha estudo em religião ou teologia, eu entendo que os versos cuidadosamente selecionados encontrados nas escrituras sagradas para justificar a superioridade dos homens se devem mais ao tempo e ao lugar – e à determinação de líderes masculinos que mantêm sua influência – do que a verdades eternas. Trechos bíblicos similares poderiam ser achados para apoiar a escravatura e o consentimento tímido a ditadores opressivos.
                Ao mesmo tempo, estou também familiarizado com as descrições vívidas nas mesmas escrituras nas quais mulheres são reverenciadas como líderes proeminentes. Durante os anos da igreja Cristã primitiva as mulheres serviram como diaconisas, pastoras, bispas, apóstolas, professoras e profetisas. Foi só no quarto século que os líderes Cristãos dominantes, todos homens, torceram e distorceram as escrituras sagradas para perpetuar seus cargos superiores dentro da hierarquia religiosa.
                Eu sei, também, que Billy Graham, um dos Cristãos mais amplamente respeitados e reverenciados durante meu tempo, não entendeu porque mulheres foram proibidas de serem pastoras e pregadoras. Ele disse: “Mulheres pregam ao redor do mundo inteiro. Não me incomoda, de acordo com meus estudos das escrituras.”
                A verdade é que os líderes religiosos masculinos tiveram – e ainda têm – uma opção de interpretar os ensinos sagrados ou para exaltar ou para subjugar mulheres. Eles escolheram, para seus próprios fins egoístas, predominantemente esta.

                Sua escolha contínua fornece o fundamento ou a justificativa para grande parte da perseguição dominante e do abuso de mulheres ao redor do mundo. Isto está em violação clara não somente da Declaração Universal de Direitos Humanos mas também dos ensinos de Jesus Cristo, do Apóstolo Paulo, de Moisés e dos profetas, de Maomé, e dos fundadores de outras grandes religiões – todos os quais conclamaram o tratamento próprio e igualitário de todas as crianças de Deus. Chegou a hora de termos a coragem de desafiar essas visões.

                Jimmy Carter foi presidente dos Estados Unidos de 1977 a 1981. Os Anciãos (Elders) são um grupo independente de líderes globais eminentes, agrupados por Nelson Mandela, que oferecem suas influências e experiências para apoiar a construção da paz, ajudar a lidar com as principais causas de sofrimento humano e a promover interesses comuns da humanidade.

Fonte: The Observer, Inglaterra